Uma introdução ao Modelo A

O modelo A (Augusta) de metabolismo informacional é a peça-chave para entender um dos mais discutidos ramos da “sociomática”, ao qual sua criadora designou de “sociônica”. A partir de uma óptica paradoxal e dicotômica, tornou-se possível seccionar o fenômeno fundamental de qualquer sociedade (o Socion) em dezesseis tipos de relações entre dezesseis tipos de personalidade, inteligência ou metabolismo. Este breve escrito deve bastar para fundamentar as principais perspectivas desse eixo teórico ou, como sua criadora tanto gostava de atribuir, nova “ciência social”.

Aušra “Augusta” Augustinavičiūtė

É relativamente comum que, no desenvolvimento de ideias e teorias novas, seus reais pioneiros sejam excluídos ou reduzidos a mera criação do esboço aceito. Esses casos parecem recair ainda mais quando a mente detrás de um estudo não é um homem ou está plenamente submissa ao papel patriarcal da sociedade moderna. Esse terrível e injusto evento parece ser muito adequado ao caso de Aušra Augustinavičiūtė ou, como preferia ser chamada, “Augusta”.

Em 1921, o psiquiatra suíço C. G. Jung publicou oficialmente uma das suas maiores e mais revolucionárias obras, “Tipos Psicológicos”, introduzindo novas questões e público a antiga possibilidade de compreender a personalidade humana sob esquemas, representações intelectuais e, sobretudo, em vias analíticas e científicas. Muitas propostas revolucionárias vieram da contribuição do psiquiatra, incluindo o popular “Teste do MBTI” (Myers-Briggs Type Indicator), ao qual simplificava as pesquisas de Jung de forma acessível à população geral, apesar da falta de conhecimento ou noção destes sob princípios médicos ou psicológicos.

Entre os inúmeros autores que se espelharam na pesquisa de Jung, a década de 80 iniciou-se com a ilustre publicação do que seria, a partir dali designado, a ‘Teoria Sociônica’. O principal nome detrás do grupo de pesquisadores pioneiros nesse novo estudo era Augusta, uma economista, psicóloga e socióloga lituana que, observando as mobilizações vigentes e as contribuições científicas ao ramo do comportamento e da formação da sociedade, tentou aproximar toda a proposta de Jung a um problema central em sua vida e cultura: a diferente manifestação psicológica das pessoas, suas capacidades e vulnerabilidades, além da relação que estas tinham na criação de civilizações, sociedades e culturas.

Augusta nasceu na Lituânia, não muito longe da cidade de Kaunas. Em 1956, formou-se na Faculdade de Economia da Universidade de Vilnius. Seu contato com Jung deu-se no período entre sua formação e a década que antecede o início de suas publicações, aproximadamente em 1970; sua visão mais cética, menos centrada na psicologia profunda que Jung e, consequentemente, Sigmund Freud almejavam explorar fez com que a psicóloga passasse a focar em fenômenos mais concretos, ou melhor, mais ligados ao fenômeno socioeconômico.

A fama não vem facilmente, o mesmo ocorreu com Augusta; sua proposta era, decerto, revolucionária, mas era muito exigente para os poucos intelectuais vigentes. Muito provavelmente seu primeiro clube sobre sua teoria, fora os anos que passou a esboçá-la a sós ou com amigos íntimos (o caso com Nikolai Medvedev), tem data em seu encontro com Igor Weisband, profundo colaborador e comentador de sua obra. Em seu texto em homenagem a Augusta, meses após seu falecimento, o “socionista” narra como fora esse seu primeiro encontro com a pioneira do estudo: (1)

“Um dia, encontrei minha amiga Natasha Morozova na rua.

— Você se interessa por psicologia, não é? — disse ela. Eu já havia fundado meu próprio clube de psicologia na Casa dos Cientistas; era um ponto de encontro boêmio e pitoresco.

— Aušra Augustinavičiūtė esteve aqui enquanto você estava fora e falou sobre a sociônica.

— O que é isso?

— É melhor você ouvir por si mesmo. A esposa de Oleg Bakhtiyarova organizou um seminário. Eles se reúnem às quintas-feiras.

Comecei a frequentar o seminário. Sveta Bakhtiyarova não vinha regularmente e, por hábito como presidente da seção de psicologia e pelo meu fanatismo crescente (senão eu, quem?), logo assumi o controle. A partir do teste aplicado me diagnostiquei como um tipo Yesenin ( ). Logo mais Augusta voltou a Kiev. Estávamos andando de trólebus juntos e comecei a expor algumas ideias para ela com entusiasmo; ela me interrompeu no ponto mais interessante, com seu jeito encantador e peremptório: ‘Você não é Yesenin ( ), você é um Dom Quixote ( )’. Então foi a própria fundadora do movimento que me nomeou como Dom Quixote. E às vezes me pergunto o que teria acontecido se ela não o tivesse feito? Eu teria continuado trabalhando tranquilamente na Sociônica e criado minha própria escola. Eu teria nomeado aqueles de quem eu gostava como meus tipos complementares e mobilizadores. Eu teria defendido meu diagnóstico de forma ativa e com grande fervor polêmico, como é costume na Sociônica – sem me preocupar com provas, mas citando o óbvio. Eu apoiaria com prazer a opinião de que Yesenin é o meu próprio tipo, justo ele, o mais típico de todos os tipos. O leve sarcasmo aqui se deve a uma tentativa de me redimir por aqueles pecados da Sociônica, pela emergência ou desenvolvimento dos quais participei pessoalmente”.

O charme de Augusta não estava na conquista sedutora, na promessa por futuros melhores ou no ceder bens e financiamento; seu temperamento inventivo e democrático era facilmente percebido e reconhecido por seus colegas e amigos, comentados e cristalizados nas homenagens que seguiram seu fim, como no caso do relato de G. A. Schulman:

“Augusta, defendia o direito de cada tipo metabólico-informacional ser ele mesmo, enfatizou repetidamente — mesmo em conversas privadas — o papel excepcional que cada um dos dezesseis sociotipos têm no desenvolvimento da ciência e do progresso científico e tecnológico em geral. Certa vez, em resposta ao meu comentário de que os Dom Quixotes às vezes não ouvem ninguém além de si mesmos, ela respondeu de forma bastante incisiva: ‘Quem Dom Quixote deveria ouvir senão a si mesmo?!’. Ela mesma escreveu: ‘Não existem tipos de inteligência mais ou menos valiosos. Todos são indispensáveis ​​na corrida de revezamento do progresso social. Mas um exame dos tipos de metabolismo informacional das pessoas mais notáveis ​​e famosas dos últimos séculos é intrigante. A proporção de pessoas de um único tipo — por exemplo, de Intuitivos-Lógicos Extratímicos — é muito alta. Muitas pessoas desse tipo trabalharam por muitos anos, sem serem reconhecidas por ninguém, por sua própria conta e risco, sem encontrar apoio de seus companheiros de tribo, o que é bastante raro com indivíduos de outros sociotipos, caso decidam seguir algum caminho’.”.

As reuniões passaram de clubes fechados para ocupações maiores; grande parte das contribuições emergiram das discussões realizadas na Casa dos Professores Kyiv, localizada na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), atual Ucrânia. A formalização e a publicação de teses acadêmicas só tiveram início a partir do ano de 1995 na revista pessoal dos socionistas vigentes: Socionics, Mentology and Personality Psychology. Um retrato fiel e subjetivo do lar de discussões, Casa dos Professores, foi fornecido na homenagem de A. V. Bukalov:

“Em 1986, fui convidado para a Casa dos Professores de Kyiv, onde um pequeno grupo de pessoas interessadas em psicologia e na tipologia de Jung se reunia no âmbito do novo campo da Sociônica. Este era o nascente Clube de Sociônica, que, ao longo de dois ou três anos, matriculei-me na Escola de Sociônica de Kyiv. Lá, tive meu primeiro contato com os robôs fotocopiados de Aušra, que eram distribuídos gratuitamente entre todos os interessados: Aušra Augustinavičiūtė visitou Kyiv diversas vezes e ministrou palestras públicas no Instituto de Cibernética da Academia Ucraniana de Ciências. Ao contrário dos psicólogos ideológicos que receberam seu trabalho com hostilidade, os ciberneticistas e especialistas em ciência da informação e modelagem da inteligência receberam as novas ideias de Augusta sobre a estrutura informacional da psique humana com grande interesse e entusiasmo. Nos primeiros trabalhos de Augusta, fiquei impressionado com a clareza, a precisão e a lógica de seu pensamento. Tendo considerado anteriormente muitas das ideias de Freud e Jung, pude perceber rapidamente as conexões internas entre várias coisas que ou não haviam sido mencionadas ou haviam recebido pouca atenção. Augusta descreveu o modelo informacional da psique — modelo A — e as relações intertipológicas com incrível clareza e beleza. O gênio de Augusta deu origem à Sociônica, e ela emergiu no mundo como Palas Atena, surgindo em armadura e bradando um grito de guerra da cabeça de Zeus diante dos olhos atônitos dos deuses. A própria Augusta tinha um espírito guerreiro”.

O primeiro texto, que inicia as teses de Augusta sobre a Sociônica, foi escrito e divulgado aos poucos até ser publicada na revista Socionics, Mentology, and Personality Psychology no ano de 1995. Este primeiro artigo introduziu sua teoria, ou melhor, sua metodologia que integrava a hipótese de C.G. Jung a grandes autores da época — especialmente no âmbito psicológico comportamental — incluindo Ivan Pavlov, E. Kretschmer, A. E. Lichko e A. Kepinski. O resultado disso foi uma “tipologia informacional-comportamental”, menos centrada na “alma” e mais direcionada à relação que dois ou mais indivíduos apresentam, explicitamente, na sociedade.

Durante o período de 1980 e 1981, Augusta publicou poucos e curtos textos sobre análises gerais, centradas na demografia e na economia, pouco direcionados a sua pesquisa. Contudo, em 1982, a psicóloga publicou sua primeira monografia (revisada), denominada de “Theory of Intertype Relations”. Sua proposta, diferente do primeiro artigo, não era propor integração teórica, mas expor os dados que colheu e a metodologia que começaria a traçar; isso se comprova pois, além de expor ao público pela primeira vez o que pensava determinar certos tipos de relações entre diferentes tipos de pessoas, Augusta também passou a introduzir um fenômeno maior, ao qual só passaria a descrever em sua segunda monografia, denominada de “The Socion” (1982). A soma dos textos produzidos pela psicóloga durante este ano foram essenciais para expor seu objetivo como pesquisa, o seu objeto de estudo e, sobretudo, embasar com a possibilidade hipotética de um fenômeno social superior, o denominado “Socion”, e suas diferentes partes encarnadas em diferentes “temperamentos”, “tipos”, que narram como a proposta de um “metabolismo informacional” (Cf. A. Kepinski) poderia exemplificar a formação cultural e social.

1 O texto recebeu o nome “About Aushra, Socionics and a little about life” e foi publicado na revista Socionics, Mentology and Personality Psychology no ano de 2006, nº 4.

Os elementos de reflexão

O principal mecanismo psicológico abordado por Augusta no viés sociônico são os elementos de reflexão. Esse processo se dá, mais ou menos, como aparelhos cerebrais de menor porte, capazes de traduzir a realidade objetiva em aspectos menores e cognoscíveis para a consciência humana. Um perfeito reflexo da perspectiva de Augusta na ciência foi traçado, anteriormente, por I. V. Pavlov e seus sistemas de sinais primário e secundário. Segundo o autor, este primeiro “é tudo que internalizamos e fundamentamos em impressões, sensações e ideias do ambiente natural e social circundante”; enquanto o último tem “as palavras como fundamento do sistema de sinais secundário da realidade, que é específico a nós (seres humanos) e serve-nos como sinalização sob nossa sinalização primária”. Em suma, a psique humana é constituída por dois sistemas:

- um capaz de internalizar impressões, sensações e estímulos do ambiente;
- e outro capaz de processar o primeiro tipo e verbalizá-lo.

Os elementos de reflexão, como qualidades da psique humana diferenciada, narram ambos os sistemas, de forma que é capaz de servir tanto para a internalização quanto a verbalização, i.e., a aplicação e a replicação de informações e estímulos.

Quem cedeu grande parte das ideias sobre os elementos e seus nomes para Augusta? Definitivamente foi uma soma dos estudos de C. G. Jung e A. Kepinski. Enquanto a teoria do metabolismo abrange grande parte dos modelos de psique, as peças estruturantes de um sujeito foram definidas por Jung e sua ilustre obra Tipos Psicológicos (1921). Segundo Augusta, a proposta de um modelo quádruplo de elementos foram perfeitos, mas negava que apenas quatro tipos de aspectos poderiam ser expressos pela psique, mas sim oito (referente aos oito tipos psicológicos completos de Jung); dessa forma, um modelo mais ou menos geral de elementos poderia ser traçado, onde os primeiros dois elementos são “irracionais” (ou ciclotímicos) e os dois últimos, “racionais” (ou esquizotímicos):

- () — Intuição;
- () — Sensação;
- () — Ética;
- () — Lógica.

Dos tipos psicológicos de Jung, os oito elementos poderiam ser traçados do seguinte modo:

- () — Intuição Extratímica;
- () — Intuição Introtímica;
- () — Sensação Extratímica;
- () — Sensação Introtímica;
- () — Ética Extratímica;
- () — Ética Introtímica;
- () — Lógica Extratímica;
- () — Lógica Introtímica.

Qual a principal diferença entre os elementos extratímicos e introtímicos? Em suma, seria qual dos aspectos de uma mesma natureza (macro-conceito ou elemento) eles decidem refletir: se são as sensações ou “campos psicológicos” entre corpos, ou aspectos inerentes a esses últimos. Talvez a melhor forma de analisar isso seja compreendê-los em objetos inanimados, como a relação do sol e da terra:

Socionics 1

Aspectos extratímicos são inerentes aos corpos, portanto o sol e a terra possuem em sua essência elementos “corporais” que narram suas propriedades e processos como objetos. Os aspectos introtímicos, por sua vez, são campos entre corpos, produzidos por sua interação. Em um caso mais específico, a ética extratímica () do sol — que narra seus processos químicos inerentes — afeta a ética extratímica () da terra através do campo de interação entre ambos os astros, representada pela ética introtímica ():

Socionics 2

Durante seus escritos, Augusta fornece diferentes explicações para cada elemento de reflexão; contudo, optei em expor a definição mais recente, encontrada em Socionics: Psychotypes and Tests (1996):

- Intuição Extratímica () — O conteúdo implícito. “A energia potencial de um objeto, seu conteúdo e estrutura implícita, suas capacidades internas. O ‘programa’ embutido no objeto. Quaisquer habilidades concretas de uma pessoa. O que Karl Marx chamou de ‘força laboral’, ou seja, o conjunto das capacidades físicas e mentais do indivíduo. Uma percepção da presença de habilidades e capacidades internas ocultas. Essa percepção permite determinar se um objeto ou fenômeno é permanente ou efêmero”.
- Intuição Introtímica () — Tempo. “Tanto o tempo objetivo quanto o tempo subjetivo de um objeto. A duração do funcionamento ou existência do objeto, que é determinada por sua energia potencial e pelo gasto dessa energia por unidade de tempo. A situação externa do objeto em relação a outros objetos, ou seja, sua posição no tempo. Intervalos de tempo entre eventos, a duração de eventos específicos, a sequência de eventos e processos, seu ritmo no tempo, rapidez e lentidão. Tudo isso se aplica tanto a processos externos quanto internos. Uma percepção da atualidade, da urgência ou da falta dela, etc. Uma percepção de onde os eventos atuais estão posicionados no tempo em relação a outros eventos”.
- Sensação Extratímica () — Forma de um objeto. “A energia cinética do objeto, sua prontidão para gastar energia. Suas qualidades externas – cor, contorno, lisura ou rugosidade da superfície. Mobilização explícita. A vontade de uma pessoa, sua capacidade e prontidão para usá-la em si mesma e nos outros. A percepção de se o objeto está pronto para exercer sua vontade, para demonstrar sua força, se o objeto é estético”.
- Sensação Introtímica () — Estado. “A situação interna do objeto em relação a outros objetos, a maneira como outros objetos afetam o estado do objeto e se refletem nesse estado. Poderíamos chamar isso de ‘reverberação’ do espaço dentro do objeto. O estado é condicionado por processos tanto externos quanto internos. Uma sensação de prazer, satisfação ou insatisfação física e estética”.
- Ética Extratímica () — Dinâmica implícita. “Processos internos que permanecem ocultos à vista, muitas vezes revelando-se através de sons que emanam do interior do objeto ou pela alteração da sua aparência (por exemplo, vermelhidão no rosto). Para as pessoas, isso abrange desde experiências emocionais até a digestão. Estados emocionais, humores, excitação, depressão. Uma percepção sobre se os impulsos internos são éticos e se é possível mudar algo que está acontecendo dentro de si ou em outro objeto”.
- Ética Introtímica () — Força atrativa dos objetos . “Isso pode ser chamado de 'distância subjetiva' entre objetos. Quando se trata de pessoas, um exemplo disso é o amor e o ódio. A pessoa amada está perto mesmo a uma grande distância, e a pessoa odiada está longe mesmo estando próxima. Isso inclui a percepção da ética nos relacionamentos, a bondade ou as más qualidades de uma pessoa, o desejo ou a relutância, etc”.
- Lógica Extratímica () — Dinâmica explícita. “Evento, fato, ação, mudança de posição no espaço. Manifestação externa do processo, a forma que ele assume. O movimento do objeto no espaço e todas as outras formas de movimento externo de objetos. A percepção da lógica de uma ação e se algo que está acontecendo pode ser resistido”.
- Lógica Introtímica () — Espaço . “A distância entre objetos, posição no espaço ou entre outros objetos, hierarquia. Um sistema como um agregado de distâncias que foram estabelecidas intencionalmente ou acidentalmente. Um sistema de relações objetivas e regidas por leis na natureza e na sociedade”.

Dicotomias sempre separam um todo em duas partes de quantidades iguais, nos elementos isso já aconteceu com os traços extratímicos-introtímicos, o mesmo pode ser visto em aspectos explícitos-implícitos, onde a intuição e a ética revelam-se como propriedades implícitas de corpos e relações, enquanto a sensação e a lógica são aspectos explícitos: aplicando em um outro mecanismo inanimado, como uma máquina de quatro tempos, a natureza desses elementos podem ser melhor descritos:

Socionics 3

A estrutura implícita de um corpo (I.), i.e., sua energia potencial, é transformada em energia cinética (III.) através da combustão ou compressão (II.) e expressa como trabalho (IV.). O processo estrutural e de transformação são, sempre, implícitos, ocultos ao olho nú, mas podendo ser inerente a um corpo (como no sistema acima) quanto em relações; por outro lado, o processo formal e de movimento de um corpo sempre são explícitos, visíveis, incluindo suas relações e campos psicológicos, que também são imediatos na experiência.
Por fim, outra forma de narrar esses mecanismos é através da dicotomia estático-dinâmico, determinado quais aspectos se revelam como processos ou em propriedades amostrais. Elementos estáticos percebem a realidade como algo parado e amostral, direcionando atenção a propriedades explícitas () e implícitas (), além de tentar abordar relações objetivas () e subjetivas (). Elementos dinâmicos, por sua vez, percebem a realidade como algo cinético e móvel, direcionando atenção a processos explícitos () e implícitos (), além de colisões físicas () e temporais ().

Modelo J — uma introdução aos tipos de metabolismo

O contato com o mundo de Jung foi o que providenciou a Augusta um modelo relativamente “básico” para compreender as pessoas: esse que passou a ser denominado de modelo J. O fato de que esse modelo é incapaz de atender as necessidades de ambos os estudos — i.e., tanto a proposta original de Jung quanto a nova ciência de Augusta — foi o que o tornou como mero intermediário: uma pista disso está em uma das monografias iniciais publicadas pela autora, designada de “Commentary on Jung’s Typology & an Introduction to Information Metabolism” (1982), onde ela mesma admite a complexidade de estudar Jung diretamente e explicita o seu método de “traçar paralelos compreensíveis”. Augusta havia gostado da proposta de Jung por não buscar “patologizar” ninguém através de sua tipologia, mas sim criar uma ponte entre o desconhecido mecanismo subjacente da personalidade saudável e do conhecimento teórico:

“A tipologia de Jung é uma tipologia de pessoas saudáveis que, assim, permite entender a psique de uma pessoa doente, e não o contrário, como geralmente acontece. Mas na minha visão, ela não está completa. (2) Jung forneceu apenas um mapa pertinente dos tipos humanos, que exigia conclusão e completação. Muitas reflexões e ponderações do autor desta tipologia são apenas hipóteses de trabalho, palpites ao tentar projetar um modelo da psique humana”.

Para ela, o modelo J (Jung) poderia centrar-se no debate de quatro elementos (que Jung denominou de “tipos funcionais”: intuição, ética [sentimento], sensação e lógica [pensamento]) e em suas variações extratímicas e introtímicas (v. abaixo): desta forma, um modelo com oito elementos poderia resultar (seguindo regras) de dezesseis diferentes combinações com quatro elementos. O elemento que desempenha o papel principal na psique de um indivíduo fora chamado de “líder” ou “função líder” sendo, no modelo J, uma exclusividade em atitudes:

“Em um modelo J extratímico, a função líder é extratímica, enquanto as outras três são introtímicas. Em um modelo introtímico, o oposto é verdadeiro”.

Dessa forma, poderia-se narrar os dezesseis tipos de intelecto do seguinte modo (as quatro primeiras linhas referem-se a tipos irracionais, enquanto as quatro últimas, aos racionais):

a) b)
c) d)
e) f)
g) h)
i) j)
k) l)
m) n)
o) p)

De Kepinski, Augusta tira suas noções e fundamentos dos tipos de metabolismo. As definições mais genéricas do termo, com as cedidas no Oxford Learner’s Dictionary, parecem se referir quase que exclusivamente ao que se denomina “metabolismo energético”: “Os processos químicos nos seres vivos que transformam alimentos, etc., em energia e materiais para o crescimento”. Quando Augusta aborda o processo deste primeiro tipo de metabolismo, ela enumera suas funções:

- Controle dos sistemas funcionais do organismo, permitindo sua função como sistema de autorreprodução;
- Controle das ações individuais, pelas quais as funções pessoais como ser social são concretizadas e cujo objetivo imediato é a autossuficiência;

Kepinski, em sua Psicopatologia das neuroses, direciona o diferencial entre o tipo de metabolismo energético e o informacional através da “individualidade”: “Uma característica do mundo natural é a individualidade, que já se expressa no metabolismo energético (a individualidade dos processos bioquímicos do organismo), mas é mais pronunciada no metabolismo informacional”. Enquanto Augusta sucinta essa diferença através do conteúdo gerido pelo metabolismo informacional:

- Controle do armazenamento e uso de informações, incluindo seu uso na “programação” das atividades das outras pessoas com outros tipos metabólico-informacionais

De forma sucinta, a psique trabalha com duas diferentes grandezas capazes de narrar a atividade individual e coletiva, i.e., também de gerenciá-las:

- um metabolismo direcionado a réplica e abstração informacional, dependente de ambos sistema de sinais (primário [instintivo] e secundário [verbal]);
- um metabolismo direcionado a aplicação informacional sob instintos, como a reprodução, nutrição e estabilização psicobiológica; dependente quase que exclusivamente do sistema de sinais primário (instintivo).

A relação entre ambos os metabolismos é de interdependência, um não pode coexistir sem o outro, de forma que um pode ser esboçado pelas mesmas leis que o outro:

“Toda alteração no organismo em si ou em sua posição não é apenas um ato do metabolismo energético, mas também como um sinal informacional aos seres envolvidos. Afinal, o metabolismo energético também é um metabolismo informacional. As quatro fases do metabolismo energético corresponde às quatro fases do metabolismo informacional, de forma que um é incapaz de existir sem o outro”.

“Cada período corporal é refletido pela psique — ou pelo mecanismo de metabolismo informacional. Para esse fim, esse mecanismo possui quatro elementos, chamados de “elementos negros do metabolismo informacional”. Eles refletem o que está ocorrendo no corpo e convencionalmente chamadas de “negras” (devido a cor de seu símbolo). Já que o metabolismo informacional é meramente uma reflexão do metabolismo energético, designamos o mesmo símbolos para as fases corporais de ambos: , , , ”.

“Cada fase espacial é também refletida pela consciência ou mecanismo metabólico-informacional. Para este fim, este mecanismo apresenta quatro elementos, chamados de “elementos claros do metabolismo informacional”; esses quatro elementos percebem informações sobre quatro diferentes aspectos ou fases dos campos metabólico-energéticos. Assim, também designamos os mesmos símbolos para todos os elementos em ambos os metabolismos: , , , ”.

Um determinado modelo A de metabolismo informacional, em estrutura e em elementos, representa um único tipo metabólico-informacional: ao todo, compreende-se a existência de dezesseis modelos diferentes, cada um responsável pela réplica quanto aplicação de determinadas informações, sendo o fato que diferencia um certo tipo de outro é o grau de consciência que cada um possui de aspectos da realidade objetiva. Os tipos disponíveis no modelo A de metabolismo informacional são processados dos tipos do modelo J e podem ser visto a seguir:

a) Intuitivo-Lógico Extratímico (Dom Quixote, )
b) Intuitivo-Lógico Introtímico (Balzac, )
c) Intuitivo-Ético Extratímico (Huxley, )
d) Intuitivo-Ético Introtímico (Yesenin, )
e) Sensorial-Lógico Extratímico (Zhukov, )
f) Sensorial-Lógico Introtímico (Gabin, )
g) Sensorial-Ético Extratímico (Napoleão, )
h) Sensorial-Ético Introtímico (Dumas, )
i) Lógico-Sensorial Extratímico (Stierlitz, )
j) Lógico-Sensorial Introtímico (Gorki, )
k) Lógico-Intuitivo Extratímico (Jack London, )
l) Lógico-Intuitivo Introtímico (Robespierre, )
m) Ético-Sensorial Extratímico (Hugo, )
n) Ético-Sensorial Introtímico (Dreiser, )
o) Ético-Intuitivo Extratímico (Hamlet, )
p) Ético-Intuitivo Introtímico (Dostoievski, )

2 A visão de Augusta, a autora, é fundamentada apenas no escopo de Tipos Psicológicos; há uma profunda ignorância frente às demais obras de C. G. Jung

Um esboço da natureza dos tipos

Para finalizar esse esboço, irei fornecer uma breve descrição das informações primárias e secundárias de cada tipo metabólico-informacional; tal retrato é caricato e não pode substituir em totalidade todas as instâncias apresentadas nos trabalhos de Augusta.

I. Intuitivos Extratímicos e Introtímicos:
a) Dom Quixote ( ) — Um categórico intelectual / um sensível emocional. Conscientemente, um Dom Quixote é capaz de estudar as mais diversas propriedades implícitas da humanidade e da natureza, sendo muito capaz de traçar novas estruturas e sistemas lógicos favorecendo o progresso social; inconscientemente, é um sujeito sensível fisicamente, temeroso da incapacidade de ser autônomo em suas emoções.
b) Balzac ( ) — Um pragmata pessimista / um volátil bondoso. Conscientemente, um Balzac é capaz de traçar formas de operar e trabalhar mais eficientemente, a fim de conquistar sensações futuras prazerosas para si e para os demais; inconscientemente, é um sujeito que desconhece suas vontades e propriedades explícitas, temeroso de não estar sendo bom ou moral por si.
c) Huxley ( ) — Um entusiasta humanitário / um sensível trabalhador. Conscientemente, um Huxley é capaz de estudar as mais diversas propriedades implícitas da cultura e espiritualidade humana, providenciando novas formas de relações éticas e morais, além de introduzir novos desejos na sociedade; inconscientemente, é um sujeito sensível fisicamente, temeroso da incapacidade de agir por conta própria.
d) Yesenin ( ) — Um idealista emocional / um volátil lógico. Conscientemente, um Yesenin é capaz de influenciar e alterar verbalmente as emoções e o faz a fim de conquistar sensações futuras prazerosas para si e para os demais; inconscientemente, é um sujeito que desconhece suas vontades e propriedades explícitas, temeroso de não estar desempenhando a lógica social por si.

II. Sensoriais Extratímicos e Introtímicos:
e) Zhukov ( ) — Um estrategista intelectual / um emocional alienado. Conscientemente, um Zhukov pode traçar objetivos concretos para si e para os demais, debruçar-se e criar novas metodologias lógicas a fim de conquistar isso; inconscientemente, é um sujeito alienado de suas próprias sensações temporais, temeroso da incapacidade de ser autônomo em suas emoções.
f) Gabin ( ) — Um pragmata eficiente / um frágil humanista. Conscientemente, um Gabin pode fornecer métodos de trabalhos mais eficientes, poupando os esforços dos demais e de si mesmo, providenciando sensações estéticas prazerosas; inconscientemente, é um sujeito que desconhece suas próprias capacidades implícitas, temeroso da incapacidade de ser bom e moral por si.
g) Napoleão ( ) — Um estrategista sedutor / um trabalhador alienado. Conscientemente, um Napoleão pode traçar objetivos concretos para si e para os demais, tendo a capacidade de seduzir e atrair os demais para tal vontade coletiva; inconscientemente, é um sujeito alienado de suas próprias sensações temporais, temeroso da incapacidade de ser autônomo em suas próprias ações.
h) Dumas ( ) — Um hedonista sedutor / um frágil lógico. Conscientemente, um Dumas pode traçar sensações prazerosas ideais para si e para os demais, usando de seu talento emocional para conquistar tal efeito; inconscientemente, é um sujeito que desconhece suas próprias capacidades implícitas, temeroso de não estar desempenhando a lógica social por si.

III. Éticos Extratímicos e Introtímicos:
i) Hugo ( ) — Um inspirador fervoroso / um profissional frágil. Conscientemente, um Hugo pode traçar motivações e emoções ideais para si e para os demais, usando de informações sobre sensações estéticas para conquistar seus objetivos; inconscientemente, é um sujeito que desconhece sua posição lógica, temeroso de não estar desempenhando bem suas próprias capacidades implícitas.
j) Dreiser ( ) — Um moralista veemente / um workaholic alienado. Conscientemente, um Dreiser pode traçar moralidades e éticas ideais para si e para os demais, usando da aparência, vontade e bens para conquistar seus objetivos; inconscientemente, é um sujeito que desconhece suas tarefas e trabalho, temeroso de não estar desempenhando bem seu próprio ritmo e sensações temporais.
k) Hamlet ( ) — Um inspirador trágico / um profissional sensível. Conscientemente, um Hamlet pode traçar motivações e emoções ideais para si e para os demais, usando de informações sobre sensações temporais (incluindo distopias e tragédias) para conquistar seus objetivos; inconscientemente, é um sujeito que desconhece sua posição lógica, temeroso de não estar desempenhando bem suas próprios bens e aparência.
l) Dostoievski ( ) — Um moralista romântico / um workaholic sensível. Conscientemente, um Dostoievski pode traçar moralidades e éticas ideais para si e para os demais, usando do conhecimento e propriedades implícitas para conquistar seus objetivos; inconscientemente, é um sujeito que desconhece suas tarefas e trabalho, temeroso de não estar desempenhando bem seu próprio bem-estar e resistência sensorial.

IV. Lógicos Extratímicos e Introtímicos:
m) Stierlitz ( ) — Um comandante fervoroso / um moralista frágil. Conscientemente, um Stierlitz pode traçar formas de trabalho e execução ideais para si e para os demais, usando das informações sobre sensações estéticas para conquistar seus objetivos; inconscientemente, é um sujeito que não conhece a qualidade de suas relações subjetivas e teme não desempenhar bem suas próprias capacidades implícitas.
n) Gorki ( ) — Um soldado veemente / um emocional alienado. Conscientemente, um Gorki pode traçar metodologias políticas ideais e usar sua vontade, aparência ou bens para conquistar seus objetivos; inconscientemente, é um sujeito que desconhece seu mundo emocional, temeroso de não estar desempenhando bem seu próprio ritmo e sensações temporais.
o) Jack London ( ) — Um comandante otimista / um moralista sensível. Conscientemente, um Jack London pode traçar formas de trabalho e execução ideais para si e para os demais, usando das sensações temporais para conquistar seus objetivos; inconscientemente, é um sujeito que não conhece a qualidade de suas relações subjetivas e teme não desempenhar bem suas próprios bens e aparência.
p) Robespierre ( ) — Um soldado romântico / um emocional sensível. Conscientemente, um Robespierre pode traçar metodologias políticas ideais e usar de informações sobre a estrutura implícita e potencial para conquistar seus objetivos; inconscientemente, é um sujeito que desconhece seu mundo emocional, temeroso de não estar desempenhando bem seu próprio bem-estar e resistência sensorial.