Uma introdução ao Eneagrama

A origem exata do Eneagrama é discutível. Muitos tentam atribuí-lo a uma tradição sufi, mais especificamente a de um misterioso grupo denominado Irmandade Sarmoung – da qual não há registros além dos escritos de Gurdjieff, como “Encontros com Homens Notáveis”. O que se pode afirmar com maior segurança, entretanto, é que o Eneagrama da personalidade, tal como é conhecido atualmente, teve seu desenvolvimento inicial nas formulações do psiquiatra chileno Claudio Benjamín Naranjo Cohen. Inspirado pelos ensinamentos do filósofo boliviano Oscar Ichazo, Naranjo integrou elementos da Protoanálise ao seu conhecimento em psicoterapia, particularmente da Terapia Gestalt, dando origem ao programa Seekers After Truth (SAT).

Naranjo, contudo, sustentava que seu trabalho não constituía uma mera reprodução dos ensinamentos de Ichazo. Segundo seu relato, durante o período em Arica, Ichazo não ofereceu descrições sistemáticas dos tipos de ego, tampouco considerava possível o autodiagnóstico a partir apenas das paixões e fixações. Por essa e outras razões, costuma-se distinguir os dois sistemas: enquanto a teoria desenvolvida por Ichazo é geralmente denominada Protoanálise, a abordagem elaborada por Naranjo pode ser mais adequadamente descrita como Eneagrama Clínico.

Conforme os ensinamentos de Naranjo se difundiam, muitos de seus alunos passaram a compartilhar suas ideias, oferecer workshops e produzir materiais próprios, apesar de seus frequentes pedidos de discrição (1). Esse processo contribuiu para a ampla popularização do Eneagrama, mas também para o surgimento de interpretações que frequentemente distorciam aspectos centrais da teoria original para encaixá-la em uma lógica comercial.

Eneagrama

Para compreender o Eneagrama Clínico, é essencial ter um conhecimento sólido sobre seu símbolo, que deve servir de mapa para todo interessado. O círculo que envolve todos os pontos, representantes dos eneatipos, simboliza a unidade. Dentro dele, há um triângulo, representando a “lei de três”, e setas que unem os outros sete, representando a “lei de sete”.
A “lei de três” determina uma relação entre três forças diferentes atuando sobre o universo e que mantém a estabilidade da estrutura. Os eneatipos que compõem esse triângulo são aqueles reconhecidos como menos divergentes das expectativas sociais: III, VI e IX.

Os eneatipos situados fora do triângulo interno, os quais correspondem às diferentes etapas e desvios de um processo, expressam especializações ou desequilíbrios das funções humanas fundamentais simbolizadas pelos eneatipos III, VI e IX.

O fato desses três estados mentais estarem localizados nos vértices do triângulo do Eneagrama das paixões sugere que eles constituem os alicerces de toda a estrutura emocional, enquanto as paixões situadas entre eles podem ser entendidas como combinações dessas mesmas disposições em diferentes proporções. A ira, por exemplo, seria uma combinação de preguiça psicológica e vaidade, assim como o orgulho, embora com predominância da preguiça no primeiro caso e da vaidade no segundo (NARANJO, 1990, p. 9, tradução nossa). (2)





Além das duas leis fundamentais, o símbolo do Eneagrama também pode ser interpretado por meio de eixos de oposição e localização. Os eneatipos situados no lado direito tendem a apresentar uma orientação mais social, enquanto aqueles localizados no lado esquerdo manifestam uma disposição mais antissocial. Essa antissocialidade, entretanto, não deve ser compreendida como mera ausência de sociabilidade ou carisma. Trata-se, antes, de uma maior propensão à contestação das normas vigentes, à resistência diante das convenções coletivas e à rebeldia em relação à ordem social estabelecida. Em contraste, os eneatipos do lado direito caracterizam-se por uma maior adaptação às expectativas sociais, por um reconhecimento mais espontâneo das regras de convivência e por uma tendência mais acentuada à preservação do status quo.

Outro eixo interpretativo importante diz respeito à relação entre exterioridade e interioridade. Quanto mais próximo um tipo se encontra do topo do símbolo, maior tende a ser sua orientação para o mundo externo. Nesse contexto, a extroversão não deve ser entendida apenas como sociabilidade, mas como uma predominância da atenção voltada ao objeto, às circunstâncias externas e às demandas do ambiente. Não por acaso, o Eneatipo IX, localizado na posição mais elevada do Eneagrama, é associado à paixão da acédia ou preguiça espiritual, entendida como uma resistência à interioridade. Indivíduos desse tipo tendem a evitar o contato consigo mesmos, podendo apresentar certo grau de desconexão em relação ao próprio corpo, às próprias emoções, desejos e vontades.

De modo inverso, os eneatipos situados na porção inferior do símbolo representam o polo da interioridade. Utilizando a terminologia de Jung, pode-se dizer que eles expressam uma atitude mais introvertida, isto é, uma orientação que tende a afastar-se do objeto externo e a voltar-se para o mundo subjetivo. Essa posição favorece uma maior autoconsciência, mas também uma tendência mais pronunciada à autocrítica, à insatisfação e ao sentimento de inadequação. Como observa Naranjo (1997, p. 55), “podemos dizer que aqueles que se encontram na parte de baixo do eneagrama nunca se sentem suficientemente bem ou satisfeitos, acham que são um problema e também são identificados como patológicos pelo mundo exterior, enquanto o tipo IX ocupa uma posição na qual é extremamente improvável que o indivíduo faça de si um problema ou pareça patológico para os outros”.

É por meio dessas dinâmicas que podemos compreender, por exemplo, a posição singular do Eneatipo IV. Embora esteja situado no lado do Eneagrama tradicionalmente associado aos tipos mais adaptados às expectativas sociais e mais preocupados com a imagem e o reconhecimento (I, II e III), sua localização na porção inferior do símbolo o aproxima da interioridade, da insatisfação e do sentimento de inadequação. Como consequência, o eneatipo IV pode manifestar uma postura mais contestadora ou mesmo antissistêmica, frequentemente motivada pela percepção de que aquilo que mais deseja, pertencimento, reconhecimento ou realização, permanece inalcançável.


1 Essas questões são desenvolvidas detalhadamente por Naranjo em Ensayos sobre psicología de los eneatipos (tradução livre: Ensaios sobre a Psicologia dos Eneatipos) e, posteriormente, em sua célebre obra Os Nove Tipos de Personalidade. 2 É importante mencionar que Naranjo vai além e afirma que os tipos não seriam só combinações de paixões do triângulo interno, como também combinações entre eneatipos “vizinhos”. Por exemplo, o Eneatipo I é formado também pela união da paixão do orgulho, representada pelo Eneatipo II, com a paixão da preguiça, representada pelo eneatipo IX.

As tríades do Eneagrama

Indo além, temos a caracterização mais simples de entender: as tríades dos centros instintivo, emocional e intelectual (3). São bem mais intuitivas do que os eixos interpretativos previamente apresentados e representam centros motores.

A tríade do corpo, ou instintiva, como desejar chamar, é formada pelos eneatipos IX, VIII e I. São caracterizados por uma tendência a evitar o contato profundo com o próprio mundo interior, direcionando sua energia mais para a ação e para o ambiente externo do que para a reflexão interna. Para esses tipos, agir funciona como uma forma de esquecer-se de si mesmos e evitar emoções difíceis, impedindo que parem para elaborar o que sentem ou vivem.

Embora tenham uma conexão natural com os ritmos da vida e a sabedoria do corpo, podem desenvolver uma espécie de “preguiça psicológica”, que não significa falta de esforço físico, mas resistência em perceber conscientemente o que acontece dentro deles. Isso pode aparecer como excesso de atividade, automatismo, passividade, rotina mecânica ou dificuldade de reconhecer sentimentos e necessidades internas (como é o caso do IX, mais desconectado de seu corpo e necessidades).

A tríade do coração, ou emocional, é formada pelos eneatipos II, III e IV. São caracterizados por uma forte orientação para o mundo social e para a imagem que transmitem aos outros.

Seu medo mais profundo não é apenas não serem amados, mas principalmente não serem vistos, reconhecidos ou percebidos pelos outros, como se a invisibilidade significasse uma espécie de morte psicológica. Por isso, desenvolvem uma “máscara” ou imagem idealizada que acreditam precisar sustentar para receber amor, aprovação e atenção.

Vivem muito voltados para o impacto emocional e social das coisas, preocupando-se constantemente com aparência, carisma, aprovação e rejeição. Tendem a perceber o mundo através das emoções, da sensibilidade e das reações afetivas, o que pode torná-los empáticos e emocionalmente atentos, mas também excessivamente sensíveis, manipuladores ou dependentes da validação externa.

A tríade da cabeça, ou mental, é formada pelos eneatipos V, VI e VII (sendo este último mais pseudossociável). São caracterizados por uma tendência a viver muito no mundo da mente, usando o pensamento como principal forma de lidar com a realidade. Seu mecanismo de defesa central é a separação entre pensamento, emoção e instinto, como se precisassem transformar tudo em algo racionalmente compreensível para conseguirem se sentir seguros e no controle. Em vez de viver diretamente as emoções ou os impulsos corporais, procuram analisá-los mentalmente, criando distância da experiência imediata.

Isso gera uma desconexão tanto do corpo quanto dos sentimentos: o corpo passa a obedecer automaticamente às ordens da mente, sem uma vivência sensorial espontânea, enquanto as emoções são reprimidas ou intelectualizadas. Diante de frustrações afetivas, esses tipos tendem a se recolher para a autossuficiência mental em vez de buscar contato emocional, preferindo retirar-se para seu “refúgio interno”, onde não precisam agir intensamente nem lidar com as exigências emocionais dos relacionamentos.

Enquanto os tipos emocionais se orientam pelo vínculo e os instintivos pela ação, os mentais procuram segurança através da compreensão intelectual. Porém, esse excesso de mentalização pode gerar isolamento, dificuldade de presença, desconexão emocional e incapacidade de aproveitar plenamente a experiência da vida.

3 Intelectualidade, no contexto do Eneagrama, não se refere simplesmente à inteligência ou ao interesse por ideias abstratas, mas a uma estratégia psicológica caracterizada pela tendência à elaboração mental e à busca de segurança por meio da compreensão, da análise e da antecipação. Ela envolve não apenas o elemento do amor admirativo — que frequentemente assume uma forma platônica, direcionada a pessoas idealizadas, conceitos ou valores elevados —, mas também a inclinação dos tipos mentais a lidar com ansiedades existenciais através de construções cognitivas que, muitas vezes, permanecem dissociadas da ação concreta. Em contraste, os tipos emocionais tendem a buscar sentido e regulação psicológica por meio de experiências afetivas intensas, como a nostalgia, a paixão, o romance ou a aventura. Já os tipos instintivos ou de ação relacionam-se com o mundo de maneira mais pragmática e imediata, respondendo aos desafios da existência principalmente por meio da ação, do controle ou da intervenção direta, sempre a partir das estratégias próprias de sua estrutura neurótica.

As paixões do Eneagrama

Em “Ensayos sobre psicología de los eneatipos”, Naranjo descreve diversas outras tríades, todavia, não se faz necessário explicitá-las aqui. Assim, me dou ao direito de prosseguir para as paixões, que formam a base de cada eneatipo.

Como já foi dito, o Eneatipo IX tem sua paixão melhor descrita pela palavra acédia, que ilustra uma preguiça espiritual. Essa condição pode ser entendida, em linguagem religiosa, como um esquecimento de Deus; ou, em uma perspectiva não teísta, como um progressivo ensurdecimento do espírito e uma perda do senso de ser. Trata-se de um estado de obscurecimento interior no qual o indivíduo se afasta gradualmente de si mesmo, tornando-se incapaz de distinguir com clareza seus desejos, emoções e impulsos mais profundos. Em termos psicológicos, a acédia manifesta-se como uma diminuição da interioridade, uma resistência ao autoconhecimento e uma tendência a evitar tudo aquilo que possa perturbar a própria acomodação. Dessa forma, ela não se expressa apenas como inércia ou passividade, mas também como uma recusa em ver a realidade tal como ela, em uma espécie de estoicismo resignado.

O Eneatipo VI tem sua paixão definida pela palavra medo, embora a ansiedade e a insegurança sejam, na prática, expressões mais características da dinâmica deste caráter do que um medo paralisante ou a covardia. Pode-se compreendê-la, portanto, como uma forma de ambivalência e incerteza persistente frente a um mundo frequentemente percebido como potencialmente ameaçador. É comum que se apoie em crenças, ideologias e sistemas de pensamento como formas de estruturar a realidade e garantir segurança psicológica, funcionando como pontos de ancoragem frente à instabilidade. Longe da ideia de um perfil simplesmente “emocional”, trata-se frequentemente de um funcionamento bastante racional e analítico, marcado por avaliação constante de riscos, coerência e previsibilidade, com tendência ao controle e à contenção emocional como estratégia de adaptação.

O Eneatipo III tem sua paixão definida pela palavra vaidade, que, mais do que uma simples preocupação com a aparência, consiste em uma identificação profunda com a própria imagem e em uma tendência a viver para os olhos dos outros. Assim como o Eneatipo IX, apresenta uma forma de alienação de si e um obscurecimento do próprio ser. Contudo, enquanto o IX se perde na inércia e no esquecimento de si, o III o faz em favor da imagem que constrói e projeta ao mundo. Progressivamente, pode tornar-se tão identificado com essa persona que lhe é cada vez mais difícil distinguir quem realmente é daquilo que aprendeu a aparentar ser.

Se lermos esta sequência psicodinâmica começando pelo topo, podemos dizer que uma falta do senso de ser, implícita na “robotização” da preguiça (ou da indolência), priva o indivíduo de uma base a partir da qual agir e, assim, conduz ao medo. Como, entretanto, precisamos agir no mundo, por mais que o temamos, sentimo-nos levados a resolver essa contradição agindo a partir de um falso eu, em vez de sermos corajosamente quem somos. Em seguida, construímos uma máscara entre nós e o mundo, identificamo-nos com ela, e assim surge a vaidade. Contudo, na medida em que nos identificamos com nossa máscara, esquecemos-nos de quem realmente somos, perpetuamos o obscurecimento ontológico que, por sua vez, sustenta o medo, e assim por diante, girando em torno desse círculo vicioso. (NARANJO, 1990, p. 9, tradução nossa).

O Eneatipo I tem sua paixão definida pela palavra ira. Ela deve ser entendida não apenas como uma emoção de raiva explícita, mas como uma postura de oposição à realidade tal como ela é. Suas características mais marcantes costumam manifestar-se por meio da crítica, do perfeccionismo e de elevadas exigências morais, e não por comportamentos abertamente agressivos ou hostis. Claudio Naranjo destaca que a denominação de Oscar Ichazo, ego-ressentimento, descreve de forma mais precisa essa disposição emocional, caracterizada por protesto, insatisfação e exigências constantes diante das imperfeições percebidas – em si, nos outros ou no mundo.

O Eneatipo II tem sua paixão definida pela palavra orgulho, caracterizada por uma tendência ao engrandecimento da própria imagem e à valorização excessiva de si mesmo. Os indivíduos com essa paixão tendem a ser bajuladores, estabelecendo frequentemente relações baseadas em trocas de validação mútua. Através do serviço ao outro, prova-se a si mesmo como independente, capaz e superior ao outro. Todavia, fica insatisfeito, esperando que eventualmente o outro satisfaça também seus desejos e necessidades.

O Eneatipo IV tem sua paixão definida pela palavra inveja, caracterizada pela combinação entre uma autoimagem idealizada e uma profunda sensação de falta ou insuficiência. Diferentemente da inveja entendida apenas como o desejo de possuir o que pertence ao outro, aqui a inveja se manifesta como a percepção constante de que algo essencial está ausente em si mesmo, enquanto os demais parecem possuir qualidades, experiências ou formas de felicidade que lhe faltam.

O Eneatipo V tem sua paixão definida pela palavra avareza, entendida não apenas como apego a bens materiais, mas sobretudo como uma tendência à retenção de energia, recursos e envolvimento emocional. Trata-se de uma dinâmica marcada por uma tensão entre apego e renúncia: ao mesmo tempo em que se apega ao que possui, o indivíduo tende a desistir com relativa facilidade de relações, oportunidades e expectativas de receber amor ou apoio dos outros. Como forma de compensação, volta-se para si mesmo, investindo na autonomia e no controle da própria vida interior.

O Eneatipo VIII tem sua paixão definida pela luxúria, entendida como uma busca pelo excesso e pela intensidade em todas as suas formas. Trata-se de uma disposição psíquica que não se limita ao âmbito sexual, mas se expressa como uma necessidade de vivência intensa, marcada por estímulos fortes, ação contínua e alta carga energética. Essa paixão pode manifestar-se tanto em comportamentos expansivos e impulsivos quanto na procura por experiências que elevem o nível de excitação e vitalidade, como velocidade, volume, sabores intensos ou situações de desafio.

O Eneatipo VII tem sua paixão definida pela gula. No sentido mais amplo do Eneagrama, não se refere apenas ao excesso de comida, mas a uma paixão pelo prazer e pela estimulação, que se manifesta como uma tendência hedonista de busca constante por satisfação e intensidade. Diferencia-se por se aproximar do mundo por meio de estratégias mentais, planejamento e linguagem, frequentemente utilizando ideias, sonhos e possibilidades como forma de manter o movimento em direção ao prazer e à novidade, ao contrário do eneatipo VIII que é mais corpóreo e direto.


NARANJO, Claudio. Ensayos sobre psicología de los eneatipos. 2. ed. Barcelona: Ediciones La Llave, 2017. NARANJO, Claudio. Os nove tipos de personalidade. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997. NARANJO, Claudio. Ennea-type structures: self-analysis for the seeker. Berkeley: Gateways Books and Tapes, 1990.